Naquele dia Norma chegou e disse que a minha mulher era feia e burra; que não era mulher para mim, que era uma burguesa (isso para Norma é uma ofensa): que ela, Norma, não queria continuar levando comigo aquela vida clandestina. Isso tudo num restaurante. (Pouco antes de entrar nesse restaurante, à duas horas da tarde, hora em que não tem mais ninguém, eu verificara, sozinho, se não havia algum conhecido; não havia, mas mesmo assim escolhera uma mesa de canto, meio escondida. Isso a deixou muito irritada.) “Você é um pulha, um pusilânime, um sem-caráter, um covarde, um mentiroso.” O beiço arreganhado, os dentões enormes da frente aparecendo. “Você tem cara de cavalo”, disse eu, desesperado. O que fez com que ela se irritasse ainda mais e jogasse – plaft – na minha cara um prato de azeitonas e rabanetes. (Os garçons me limparam como se nada tivesse acontecido e trouxeram um outro prato de azeitonas e rabanetes – plaft – que ela jogou também na minha cara e isso teria continuado indefinidamente se o garçom, ainda com um ar de que nada havia acontecido, não parasse de trazer azeitonas e rabanetes. Essa é a vantagem dos restaurantes de classe: nada surpreende os garçons, a não ser uma gorjeta pequena.)
Relatório de Carlos - Rubem Fonseca
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
domingo, 14 de dezembro de 2008
eu vou deixar a raiva de você crescer junto com todos os pelos. vou ficar sem tomar banho uma semana, e todo o grude pegando na pele. vou parar de lavar os cabelos, vou colocar piolhos. vou descascar perebas, vou pegar bicho de pé, não vou escovar os dentes, vou juntar meleca embaixo das unhas, não vou cortar as unhas, vou roer as unhas, vou me mijar, vou me cagar, vou me vomitar e em uma semana, seu veado, em uma semana eu vou me depilar de você num banho só. e vou dar pro primeiro que aparecer. mas vou dar tão lindo, mas vou dar tão gostoso, que você vai se revirar na cama quando me sonhar dizendo pra ele as mesmas mumunhas de nós dois. ou de nós três, no caso.
It's a long way
It’s a long
It’s a long lenga lenga lenga lenga lenga lenga
It's a long way
It's a long
É lágrima demais pra pouco olho
É olho demais pra pouco mar
É mar demais pra pouco peixe
Um dia a Mathilde vai embora. Ela sabe que vai. Todo mundo vai. É questão de tempo, ela se consola. Ou de bebida. E ela canta e se consola de novo. A Mathilde vai que vai dar certo. Ela vai pegar carona com o João do caminhão, que fica ali no posto só olhando pro cofrinho dela, quando ela se abaixa pra mostrar o decote pro Manéu. Mas enquanto ela não vai, ela fuma um cigarro de cinco minutos, um atrás do outro, cinco atrás de cinco. E aí fica mais fácil. Porque ela já sabe o que fazer com as mãos quando o João chamar. Uma fica no quadril, a outra rebola pra trás uma piola acesa na bomba do Manéu.
It’s a long
It’s a long lenga lenga lenga lenga lenga lenga
It's a long way
It's a long
É lágrima demais pra pouco olho
É olho demais pra pouco mar
É mar demais pra pouco peixe
Um dia a Mathilde vai embora. Ela sabe que vai. Todo mundo vai. É questão de tempo, ela se consola. Ou de bebida. E ela canta e se consola de novo. A Mathilde vai que vai dar certo. Ela vai pegar carona com o João do caminhão, que fica ali no posto só olhando pro cofrinho dela, quando ela se abaixa pra mostrar o decote pro Manéu. Mas enquanto ela não vai, ela fuma um cigarro de cinco minutos, um atrás do outro, cinco atrás de cinco. E aí fica mais fácil. Porque ela já sabe o que fazer com as mãos quando o João chamar. Uma fica no quadril, a outra rebola pra trás uma piola acesa na bomba do Manéu.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
domingo, 23 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
terça-feira, 28 de outubro de 2008
macumba pra mulher de pouca fé
valei-me minha menininha da cruz do espírito santo
jesus maria josé sangue de jesus há de ter poder
e minha nossa senhora não dê com os pezinhos pra trás
que lhe afogo junto com o santo antônio da vivi
jesus maria josé sangue de jesus há de ter poder
e minha nossa senhora não dê com os pezinhos pra trás
que lhe afogo junto com o santo antônio da vivi
terça-feira, 23 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
poesia esquecida
Amar, do Drummond
Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
*como pude esquecer?
Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
*como pude esquecer?
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
a bad case of stripes
domingo, 31 de agosto de 2008
ela me disse que trabalha nos correios e que namora um menino eletricista
Querem acabar comigo
Nem eu mesmo sei porque
Enquanto eu tiver você aqui
Ninguém poderá me destruir
Sayonara é manicure e frequenta minha casa há bem uns dez anos. Sayonara me deu sua coleção de vinis, cheia de rita lee, chico buarque e às vezes um benito de paula ou um do queen.
Querem acabar comigo
Isso eu não vou deixar
Me abrace assim, me olhe assim
Não vá ficar longe de mim
Sayonara foi meio porra lôca quando jovem, ainda assim teve dois filhos e, na hora de botar o nome de um, deu o nome do bandido no lugar do nome do mocinho do crime da vez.
Pois enquanto eu tiver você comigo
Sou mais forte e para mim não há perigo
Você está aqui e eu estou também
E com você eu não temo ninguém
Sayonara deixou a vida de pôrra lôca ao entrar pro AA e lá conheceu Castelo, um cara casado e muito feio, desdentado, ninguém sabia o que Sayonara via nele. Mas Sayonara lá no canto dela devia saber.
Você sabe bem de onde eu venho
E no coração o que eu tenho
Tenho muito amor e é só o que interessa,
Sempre aqui, pois a verdade é essa
Quando Sayonara vem aqui em casa e me pega de bom humor, a gente escuta rádio e às vezes canta junto. Sayonara fuma muito, já fumou mais, claro, mas sua voz é rouca como a de um cão e ela sempre fala muito alto. Mais ainda quando o rádio tá ligado.
"Eu cantava demais isso na rádio.
cantava na tevê também. lá em recife.
nessa época ainda não tinha tevê aqui"
Querem acabar comigo
Isso eu não vou deixar
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
a flecha preta
a danada da flecha preta quando entra não se sabe nem por onde se pela frente como bola de bicuda do Branco no meio dos peitos ou se por trás agulha de febre amarela na coluna mas quando é bolada que bate na pele recua um pouco e bate de novo e vai batendo batendo crente de ser água mole em pedra dura mas de duro não tem é nada aqui e segue amassando caixa toráccica apertando os pulmões e deixando a pessoa encolhida sem ar quando vem aquela pntada de facada nas costas pelos rins e uma mão puxando a cabeça da pesoa pra trás respiração diafragmática não existe respiração não existe eu não existo nada existe só essa raiva essa vontade de esguelar de entrar na casa dela e quebrar os azulejos derramar extrato de tomate na cozinha e no banheiro e em cima da cama nos lençóis mijar no fogão na pia na cama no sofá mas pra tanto mijo é breciso beber então tomar as cervejas dela derrubar cerveja nas portas dos vizinhos e soltar as baratas e ratos que catei na rua dentro do guarda-roupa e rasgar as contas guardadas há anos as cartas formatar o computador e não salvar nada envenenar o gato pobre gato mas ninguém mandou e por fim por fim deixar a chave por baixo da porta.
então ,
respiração
diafrag
mática
existe.
então ,
respiração
diafrag
mática
existe.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
melô do melô
Um sol de passas ao rum derretendo por sobre as areias caudalosas e inundando dando dando tanto que é preciso algum fel lunar pra suportar tanto tanto tanto melô.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Felicidade. Ledusha, 1984
Nada como namorar um poeta marginal
incendiado
nada como um mingau de maizena empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em Botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossa nova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.
incendiado
nada como um mingau de maizena empelotado
de tanto amor acumulado
uma casinha em Botafogo
um quarto uma eletrola
uma cartola
&
depois da praia sonhar
que a bossa nova voltou
pra ficar
eu você joão
girando na vitrola sem parar.
sábado, 9 de agosto de 2008
Carta a um amigo
Mas a frase me pareceu importante: um destino a cada vez. E aí um texto na piauí, Alberto Martins o nome do cara, vou até dar uma olhada pra ver se acho mais coisa dele. Nesse texto dois homens fazem uma viagem no meio do deserto. Ele dá lá uns nomes mas pra mim tanto faz o deserto. Deserto é deserto e pronto. Quente de dia, frio de noite, ninguém e nada. Eles estavam de carro neste deserto, e ao pararem pra o radiador esfriar, surge essa conversa, na verdade apenas um deles diz essas coisas, coisas como as linhas do céu e da terra se encontrando e espremendo tudo junto, o Bob Dylan que virou bicho, perda e fantasma e depois uma frase.
- Sabe o que acontece quando um fantasma vai embora?
- Não faço idéia.
- O mundo não fica nem mais leve nem mais livre, fica mais pesado e escuro... porque os fantasmas têm essa missão, eles levam as coisas de um lado pro outro. Eles fazem o trabalho sujo que torna o mundo suportável.
E no título outra palavra boa: trânsito.
Bom, né?
Um beijo.
L.
segunda-feira, 30 de junho de 2008
eu vou
eu vou de mala e cuia eu vou eu vou nem que seja montada na onça eu vou eu vou direto sem olhar pros lados eu vou eu vou correndo voando com meus pés que cada um sozinho vale um passo eu vou eu vou-me embora que por aqui não dá mais pé, que por aqui o inverno queimou tudo de frio, que aqui ninguém sabe mais levantar o canto da boca pra um lagarto colorido.
terça-feira, 24 de junho de 2008
são joão são jorge são você
Meu amor, botei a faca na bananeira e não teve jeito, tudo quanto é letra eu torcia pra ver o seu monograma. Meu amor, o santo antônio vai morrer afogado desse jeito, e o pior é que leva o menino jesus junto. Meu amor, meu amor, de novo queimei perna e vestido pulando a fogueira que a cada ano parece mais alta. Daqui a pouco não dou mais conta... Meu amor, meu amor, quando é que você vem pra eu lhe ensinar a dançar forró e a tomar cachaça com mel? Me diz, quando é que você vem pra me ensinar a namorar?
segunda-feira, 2 de junho de 2008
terceira pessoa
Dessa vez foi N. quem se levantou a foi até a janela. Fez amor de olhos abertos. Fez amor com vários, enquanto com ele. Durante todo o tempo ressentia aquela gota que queria pular e aquela estrada pra canto nenhum, na qual esperava uma carona que não vinha nunca.
N. estava assim na janela pro dia cinza claro. Fumava um cigarro imaginário que bem podia ser o dele. Ficou muito tempo ali, pensando em que diabo de vida era aquela, vida por inércia.
F. se levantou no colchão e por muito tempo olhou o contorno de N. contra a luz. Depois disse como quem bafora a fumaça do cigarro: te amo, neguinha. E a voz saiu como o doce que azedou, de tanto guardado.
N. pensava: moi non plus. E que droga que a gente seja assim, sempre tão atrasados pra a vida, para o amor. E a lágrima já seca teimava em encher a garganta.
Por fim, N. olhou, suspirou, deu um beijo em F. e partiu. N. sem olhar pra trás, como já fez outra vez. F. sem uma lágrima, como sempre faz.
N. estava assim na janela pro dia cinza claro. Fumava um cigarro imaginário que bem podia ser o dele. Ficou muito tempo ali, pensando em que diabo de vida era aquela, vida por inércia.
F. se levantou no colchão e por muito tempo olhou o contorno de N. contra a luz. Depois disse como quem bafora a fumaça do cigarro: te amo, neguinha. E a voz saiu como o doce que azedou, de tanto guardado.
N. pensava: moi non plus. E que droga que a gente seja assim, sempre tão atrasados pra a vida, para o amor. E a lágrima já seca teimava em encher a garganta.
Por fim, N. olhou, suspirou, deu um beijo em F. e partiu. N. sem olhar pra trás, como já fez outra vez. F. sem uma lágrima, como sempre faz.
so long
Ficamos por aqui. Não adianta falar do meu querer. Do seu pouco dado. Tudo já dito redito editado. Conto de depois. Que me doerão os olhos dos outros com os quais eu passarei a te olhar. Ter sido passageira, eu que lhe dei a chave pra morar em mim que eu deixo as portas sempre abertas. Ver você alisando cabelos tão diversos, lisos, vermelhos, azul, como se a textura fosse a mesma, como se fossem iguais aos meus crespos e grossos e negros. O que era rosa vira manjericão muito fácil, porque o cigarro te deixou sem olfato nenhum. Eu, que dentre todos os cheiros de gente vindos de você, nunca consegui identificar o meu. Me doerá, verbo intransitivo.
otário
você não tem a menor idéia de quando você não está. você nem desconfia. das partidas e de todas as distâncias para onde a sua ausência me leva. você não sabe nada. você vai e, quando volta, espera que esteja tudo como antes, tudo destino de homem, previsto, linear. mas isso aqui é terra de mulher, é terra que o vento molda, vento que o mar traz, mar com quem mulher tem pacto, mar que obedece a ciclos lunares. enfim, você simplesmente ignora toda a biologia intergaláctica e o meu ciclo menstrual.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
receita para espremer alimões, com os dentes.
porque mulher tem pacto com o mar
ó morena do mar
e eu ainda guardo a conchinha que você me deu
junto ao 3x4 teu
no plástico da carteira
ó morena do mar
e eu ainda guardo a conchinha que você me deu
junto ao 3x4 teu
no plástico da carteira
quinta-feira, 29 de maio de 2008
embora
quando você for embora, meu bem, não me mande carta. faça como na música: esteja morta. não me conte do quão nem do tão da vida de lá.
quando você for embora, meu bem, leve por favor tudo o que for seu. seu cheiro, seu barulho, sua cor. seus amigos e todas as pessoas que nos viram juntos.
quando você for embora, meu bem, não me prometa nada. e, ainda que queira me apresentar a sua confusão, traga-me sempre uma decisão dura, dessas para as quais não reste outra saída a não ser resignar-se.
quando você for embora, meu bem, não vou te mandar pro diabo que te carregue. não vou fazer greve de fome, guerrilha ou motim: como na música.
quando você for embora, meu bem, vou me perguntar se as lágrimas que chorei foram mesmo por você, ou por mim: como na música.
embora quando você for.
quando você for embora, meu bem, leve por favor tudo o que for seu. seu cheiro, seu barulho, sua cor. seus amigos e todas as pessoas que nos viram juntos.
quando você for embora, meu bem, não me prometa nada. e, ainda que queira me apresentar a sua confusão, traga-me sempre uma decisão dura, dessas para as quais não reste outra saída a não ser resignar-se.
quando você for embora, meu bem, não vou te mandar pro diabo que te carregue. não vou fazer greve de fome, guerrilha ou motim: como na música.
quando você for embora, meu bem, vou me perguntar se as lágrimas que chorei foram mesmo por você, ou por mim: como na música.
embora quando você for.
terça-feira, 20 de maio de 2008
sérgio mello
" eu vou te esperar sempre
sentado numa estação desativada
ao lado da bilheteria
usando um cachecol com as cores da bandeira jamaicana
até que um dia ouvirei o doce ruído das hélices
até que um dia conseguirei abrir o guarda-chuva
e lá estará você acenando num velho Kadet enlameado
com bolas de praia e mochilas tapando o vidro traseiro
dizendo que mudou de idéia"
sentado numa estação desativada
ao lado da bilheteria
usando um cachecol com as cores da bandeira jamaicana
até que um dia ouvirei o doce ruído das hélices
até que um dia conseguirei abrir o guarda-chuva
e lá estará você acenando num velho Kadet enlameado
com bolas de praia e mochilas tapando o vidro traseiro
dizendo que mudou de idéia"
sexta-feira, 16 de maio de 2008
o diário das horas perigosas
cada dia com seus medos, sua dor, sua solidão.
mas o carnaval há de chegar.
ah se há.
mas o carnaval há de chegar.
ah se há.
depois da carta do menino da maçã
Nasceu sem chorar, sem fazer barulho, parto normal e sem dor, olhos arregalados de quem espia. Passeava na praça, sempre às 9 horas. Um dia, esses olhos arregalados que a terra não há de comer por falta de apetite o viram. Ele passava no meio do cinza, como num filme, crac-crac nas folhas secas. Nesse dia, ela enxergou colorido. Era daltônica, culpa do pai, torcedor do Náutico, que numa raiva arrancou todo verde e vermelho que tinha metido na casa e tudo passou a tons de cinza. A praça, a luz, as pessoas tudoainda cinzas, mas ele era diferente e ela nem sabia que nome dar àquilo tudo que ele exalava. Cheiro de homem, talvez.
A praça estava no ruge-ruge e a kombi descarregava as flores na loja. Ele foi se abaixando de-va-gar-zi-nho e catou uma flor, caída no chão. Slowmotion, até que lhe escapou um grito. Fino, suspirado, mas grito: a flor se molhava de um cinza muito esquisito, havia algo de errado com a luz. Desconfiou dos lados. Estranho, ninguém notou nada. Que bom, ninguém ouviu. Nesse dia não dormiu. No dia seguinte, arranjou trabalho na loja. Era muito cheiro, a cabeça chegava a doer, mas era como abrir os braços e girar bem rápido. Era bom.
No outro dia, no ônibus, teve uma idéia que parecia tão ousada, que enrubeceu. Ele passava por ali todos os dias, ele pegava todas as flores. Nunca vira olhões tão estranhos como os daquela menina da lojinha. Umas bolotas de azul transparente, quase dava medo. Mas veio a neve, foram-se as flores. Joseph, mal-humorado com sua insônia improdutiva, decidiu entrar na lojinha e cobrar suas flores. Passou das 9 da manhã às 3 da tarde rondando pela praça, tremendo de frio, ensaiando a melhor maneira de descobrir o que tinha acontecido.
Disse um boa trade nervoso. Ela respondeu um boa tarde assustado. Ele atacou com um “tudo bem?” Ela retorquiu, na lata: “tudo. e você?” Eles se olharam desconfiados. Joseph ficou atrapalhado com aquelas bolotas e começou a futricar nas flores todas. “tô procurando flores. qual o seu nome?” Ela, espantada com tudo que via, porque Joseph ia tocando as flores uma a uma, fazendo uma confusão do que só então ela entendia que era cor, respondeu em meio-tom, com os olhos ainda mais arregalados, e ele ouviu só a metade: “ Mari... ana. E o seu?” Ele achou Ana um nome tão lindo que... “meu nome é oto. oto, com um 't' só”, e torceu para que ana pronunciasse sua próxima palavra. "como ana", pensou mariana sorrindo.
a difícil tarefa de caber
R. deu um pé de pimenta, um livro e um sabonete de mel pra lavar as mãos.
R. deu o tempo arranjado entre seus horários confundidos.
R. deu o sono que tinha e o castanho de alguns fios de cabelo.
R. empinou a coluna pra parecer menos duvidoso.
R. deu os confeitos e os confetes que tinha pra dar.
Mas T. não teve pique
nem pica
pra R.
R. deu o tempo arranjado entre seus horários confundidos.
R. deu o sono que tinha e o castanho de alguns fios de cabelo.
R. empinou a coluna pra parecer menos duvidoso.
R. deu os confeitos e os confetes que tinha pra dar.
Mas T. não teve pique
nem pica
pra R.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
verbo
infinitivamente pessoal no singular seguir doido por uma língua que possa dizer o que você quer escutar que é tudo que no fim eu vou querer dizer. subjetivamente subjuntivo feito a-tentado calado que de tanto ter sido não sabe mais mudar de tempo. e que dizer do gerúndio apenas que ela não pronunciava os dês cantano bebeno trepano.
F. de papel
F. em mais um momento de lucidez. F. sentada, parada. F. olhando a marcha das bonecas de papel. F. lendo os escritos das bonecas de papel. F. boneca de papel.
F. ficou branca como uma folha de papel. F. quase molha o papel. Mas F. chorou foi um rio e se desdobrou em barco.
F. ficou branca como uma folha de papel. F. quase molha o papel. Mas F. chorou foi um rio e se desdobrou em barco.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
bilhete
a vontade era de escrever um bilhete com aquela poesia do Bruno do paperblackcell -pouco depois do autocarro sair da gare, ela, no caderno escuro, escrevia a lápis: dentro de dois dias, chegar será o meu modo de dizer sim. (e sublinhou a palavra) - mas aí eu não escrevi, nem avisei e eu cheguei. e você não estava. sem papel ou palavras, serviu a folha da agenda, com um passei por aqui de carteiras de colégio. serviu? até te chamei alto. será que você dormia? será que dormia só? será que não queria? será... sei lá. saí dali não com a vista embassada como eu poderia ter imaginado dos filmes cheios de portas fechadas e escadas compridas. saí lúcida e comovida ao mesmo tempo. ciente, talvez. quando mais tarde você me chamou, o mundo já tinha rotado dez mil anos em uma hora e vinte e dois minutos, e o estômago junto. as palavras nunca bastam. não soube mais o que fazer. me deitei ao seu lado. fiquei ali tentando sentir o coração bater muito. falar sem tremer a voz. reconhecer. mas eu não te conheço. e às vezes sua dor parece fingida. e ainda havia um fio de cabelo grudado na sua parede. não estava lá antes. meu? pensei que podia ser. peguei, deslizei na textura. bem podia. mas bem podia ser eu me enganando de novo, trocando evidência por sinal e sinal por supertição e supertição por coisa de gente irracional. eu que não sou irracional... bem podia.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
as cartas de maria
Todas as sextas, horário do almoço, ela passava nos Correios. Chegava sempre com algumas cartas e voltava com outras mais. Eu, que almoçava ali perto, comecei a notar a rotina. Ela usava sempre uma saia rosa clarinho, com as flores já desbotadas, e uma blusa amarela ou lilás. Devia ser a roupa da sexta. Ela tinha mesmo cara de quem separava as roupas conforme os dias da semana, como os panos de prato bordados com Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado e Domingo. Toda sexta ela vai para o Correio, assim. Após algum tempo, decidi coincidir de estar nos Correios na hora dela. Estava lá tirando uma xerox de nada, quando, enfim, ela apareceu. Não se atrasou. Como eu disse, parecia dessas pessoas certinhas e, se atrasasse o correio, atrasaria o trabalho de depois. Foi assim que aconteceu e eu descobri o segredo daquela mulher com jeito de menina, magrinha... acanhada, operária. Nos Correios ela era conhecida como 'a moça da posta-restante', alguns diziam mesmo 'a posta-restante'. Não que não soubessem seu nome. Acontece que, quando o descobriram, através de algum gaiato a quem ela timidamente respondeu 'Maria', a Posta-restante já havia pegado... e ficado. Pois então, a Posta-restante era essa moça não menos moça por conta dos quarenta anos não-vividos. Toda sexta ela ia aos Correios recolher as cartas que ficavam na posta-restante. Essas cartas de alguém pra alguém que não apareceu, que ficam ali entre arquivos e repartições, esperando o príncipe no cavalo branco ou a reciclagem. Toda sexta Maria pegava as cartas a que responderia em uma semana, sem falta. Não escrevia no remetente mais que posta-restante, apesar de assinar as cartas como Maria. Satisfeito com minha curiosidade satisfeito, voltei a minha rotina do almoço. Não por muito tempo. É que Maria levava e trazia cada vez mais cartas. As cartas aumentaram tanto, mas tanto, que Maria começou a carregá-las numa sacola plástica de supermercado. A quantidade de sacolas aumentava em mais uma a cada mês. As cartas se multiplicavam, as sacolas se somavam e Maria se diminuía com o peso do tanto que carregava. E as cartas não paravam de chegar... Maria começou a ir aos Correios mais freqüentemente. Às terças, quintas e sextas. Às segundas, terças, quintas e sextas. Até que começou a ir todos os dias, e cada vez com mais sacolas. Eu pensava comigo: "Afe Maria, que Maria não dá conta..." Mas Maria dava. Arranjou até um gentil funcionário que a ajudava a carregar as então incontáveis sacolas. Maria parecia cada vez mais pequenina, dada a pressa com que movimentava aquelas pernas tão curtinhas. Só que eu comecei a estranhar Maria. Parecia agressiva. Como quem está numa guerra, como se se dissesse: "Eu consigo, eu venço essas cartas". E eu fui ficando com medo de Maria e daquela sua saia rosa que nem parecia mais tão desbotada. Eu comecei a sonhar que Maria era um dia soterrada por um caminhão de cartas, que as cartas formavam uma piscina e que Maria se afogava... mas era Maria que dirigia o caminhão e Maria era eu! Então eu acordava sobressaltado e sobressaltando da cama, respirando fundo, com força, como um guincho de baleia pra dentro.. Fiquei deveras impressionado com tudo isso. Esses sonhos e pesadelos começaram a se repetir e eu comecei a não dormir para não sonhar e, em pouco tempo, já estava tão fisicamente debilitado pelas poucas horas mal dormidas e pela constante visão daquela rotina absurda de Maria, surrealista já de tantas cartas, que tive a idéia de escrever-lhe. "Como não pensei nisso antes", pensei afinal, já que toda idéia que parece boa parece sempre também muito óbvia. E era. Então escrevi para a 'Posta-restante'. Usei um envelope vermelho para conseguir identificá-lo nas sacolas de Maria. Fiquei de tocaia, ansioso, esperando que Maria aparecesse para receber minha carta. Se todo mundo tinha direito a uma resposta, por que não eu? Mas Maria não veio nesse dia. E eu chorei nesse dia. Maria não veio no dia seguinte. E eu chorei de novo. A cada dia a ausência de Maria parecia crescer e ficar do tamanho de Maria e suas sacolas. A cada dia eu chorava mais lágrimas que as carregadas nas sacolas de Maria. Até que um pensamento, por fim, me conteve o choro. Que seria feito daquelas cartas todas, na posta-restante? Era preciso resolver o problema das cartas. Algo tem que ser feito, é necessário... ALGUÉM TEM QUE FAZER ALGUMA COISA! Calmantes. Após sete dias, voltei aos Correios. Envergonhado, apesar de brilhar certo heroísmo. Por sorte, os funcionários dos Correios já estavam com a posta-restante tão atolada que não tiveram a menor cerimônia em passá-las todas para mim. Quando finalmente consegui levá-las todas para casa, vi-me em uma quitinete encartada até o teto. Havia cartas até nas panelas. Eu sabia que precisaria responder a todas, senão não conseguiria dormir. E assim comecei a responder, a responder e responder. Respondia sem fim. Minhas canetas acabaram e eu pedi algumas emprestadas aos vizinhos. Já andava descabelado, não escovava os dentes e os vizinhos já deixavam pratos de comida na minha porta. Mas eu não tinha vontade de comer. Só precisava ler e responder àquelas pessoas que precisavam de mim. Precisavam de mim! No dia em que finalmente terminei todas as cartas, fui correndo remetê-las. Minhas mãos tremiam. Parecia que eu ia perder um prazo. Os funcionários estranharam apenas minha aparência. A quantidade de cartas não. Me olhavam como crianças olham velhas que acreditam ser bruxas. Foi com esse olhar que me entregaram o novo lote da posta-restante. Voltei para casa apressado. Minhas pernas pareciam se encurtar. Eu precisava responder as minhas cartas. Dessa vez não consegui subir todas as cartas. Boa parte deixei na portaria. Não iria sair mesmo. Entrei em casa e, dessa vez, havia cartas no chuveiro, em cima dos armários e saindo por debaixo da porta onde deveriam ter entrado. E comecei. Respondi, respondi, respondi. Fui escrevendo e escrevendo... mas as cartas cupulavam, se multiplicavam, pariam. Elas cresciam e eu dizia: "Calma! Já estou acabando, estou respondendo, estou respondendo..." E o apartamento foi ficando apertado, as cartas foram ficando apertadas, eu fui sufocando e, vendo que não tinha mais como, comecei a nadar para tentar fugir. Nadei, nadei, nadei. O oxigênio foi se acabando, eu comecei a me engasgar e... "a janela!" Foi a última coisa que consegui pensar, já que o ar parecia ser composto de super-envelopes gigantes incapazes de me entrar pelas narinas ou pela boca, mas que me espremiam como as cartas. Foi quando um envelope vermelho vivo se abriu e, num meu puxar desesperado de fôlego, colou na minha cara. Ainda pude ler: ao 'rapaz do restaurante'. Tal foi o destino do destinatário.
e me calo com a boca de feijão
shhh. it''s getting all so quiet and so peaceful. os rompantes contidos entre os segundos grudados.
mas o peito sempre em assombros, convém não desatentar. sobressaltos no coração que sempre bate demais, bate tanto, bate até doer. mas agora é hora de respirar, que ninguém aguenta muito num fôlego só. respiração de cachorrinho só pode anteceder ao parto e então me diz quantas vezes é possível parir?
mas o peito sempre em assombros, convém não desatentar. sobressaltos no coração que sempre bate demais, bate tanto, bate até doer. mas agora é hora de respirar, que ninguém aguenta muito num fôlego só. respiração de cachorrinho só pode anteceder ao parto e então me diz quantas vezes é possível parir?
quinta-feira, 1 de maio de 2008
terça-feira, 22 de abril de 2008
tatuagem de chiclete
quero ficar no teu corpo feito tatuagem de chiclete que é pra te dar coragem de chupar o chiclete rápido até ele ficar duro e você grudá-lo embaixo do banco do ônibus enquanto observa uma nuca bonita tocada por mãos delicadas, a meio palmo do seu nariz. você vai tentar sentir o cheiro, mas o danado do chiclete duro vai grudar um hortelã na sua otorrinolaringologia e você não vai sentir nada com o nariz com a boca ou com os ouvidos. destinado a viver apenas com o que os olhos vêem minha praga do chiclete vai acompanhada de uma tatuagem em forma de mordida que te marcará o corpo apenas pelo tempo breve que antecede toda ida sem despedida.
*ver: fotolog de lettuce
*ver: fotolog de lettuce
quarta-feira, 16 de abril de 2008
terça-feira, 15 de abril de 2008
faz falta
fastio na fartura das faltas
a falta cresce apertando de dentro pra fora
um grande buraco negro ressugando a pele e as artérias
levando tudo pra não sei onde
e deixando esse inconsolável vazio
a falta cresce apertando de dentro pra fora
um grande buraco negro ressugando a pele e as artérias
levando tudo pra não sei onde
e deixando esse inconsolável vazio
quarta-feira, 9 de abril de 2008
sábado, 5 de abril de 2008
desperate housewife
Colocou o gato no microondas. Silêncio. Mas um pequeno barulho ao redor. Talvez no corredor. Podem ser passos. Morde os lábios, range os dentes e já não controla o tique que junta nariz e boca numa careta única, freneticamente várias caretas por segundo. Agora só o barulho do prato do microondas rodando. Certo, estão todos na sala de jantar. Pode ouvir as risadas comedidas e sociais, risadas de sofá de sala de espera. E ela lá, na cozinha. Precisava fazer alguma coisa. Não podia se cortar com a gilete nem afundar as unhas na palma da mão porque sangue demora a coagular. Já o gato, ali no microondas, sempre poderia parecer um descuido, um lapso. Hora do chá, ok. Chá preto, assim pode colocar o pozinho de baixo do fogão que ela NÂO LIMPOU! Alforria. Ela não limpou embaixo do fogão e guarda aquele pó com grãos de arroz, tudo emaranhado em alguns fios de cabelo engordurados como se fosse seu sutiã queimado. Vai pegar a bandeja. mas não sabe que vontade louca se lhe dá, que começa a bater o inox na pia. bate, bate, bate até entorta a bandeja ou ensurdecer. Hum, falta a toalhinha da bandeja. Vai ao banheiro e pega a cueca dele, aquela suja atrás que ele não tem o pudor de lavar antes que ela veja. Então é pra ver? Pois vai ser vista. Bandeja, xícaras e chá.
- Está servido.
terça-feira, 1 de abril de 2008
Rosa
a Rosa tava lá no balcão, olhando pr'aqueles dedos com esmalte descascado. esmalte vermelho. ela olhava, roía um pouco mais o esmalte, comia um amendoim que era de graça. tomava cachaça, que era quase de graça. maltrapilha e maltratada, Rosa já nem sabia se se vestia, poderia ser uma calça aquela camisa com a qual ela tentava cobrir o que diziam ser suas vergonhas. suas vergonhas. Rosa ri. pras suas vergonhas não há roupa, camisa de força ou lona de caminhão que sirva. e brinca com a unha descascada fazendo ondinhas circulares na cachaça à sua frente. vergonha. e Rosa ri de novo. a vergonha foi a de ter tido vergonha. e de novo olha pro velho papel amassado.
"Rosa nasceu de um anúncio na sessão de encontros românticos e ofertas eróticas de um jornal semanal. Moça comum, de gestos comuns. Olhos assimétricos, é verdade. Mas não há nada de incomum nisto. Incomum mesmo era aquela pretura toda que ela tinha na retina. Olhos escuros são lugar comum? Ah, eu moraria feliz nesse lugar comum. Sem varanda ou piscina. Sem conforto, banheira ou balanço. Viveria tranquilo entre a íris ou a córnea de Rosa. Passeando por cada filme, foto ou memória que ela visse. Deslizando olho adentro nos dias de êxtase, e me dependurando nos cílios em dias de choro. Cada noite de sono seria uma gestação. Eu feto e Rosa mãe, com sua placenta ocular. E cada manhã nascer. Sem batismo ou cerimônia... nascer pra ela."
(crédito: assinava o papel amassado: http://borboletademariana.blogspot.com/)
segunda-feira, 31 de março de 2008
não satismais
se a gente falasse menos
talvez compreendesse mais
teatro, boate, cinema
qualquer prazer não satisfaz
talvez compreendesse mais
teatro, boate, cinema
qualquer prazer não satisfaz
domingo, 30 de março de 2008
vômito
eu vou vomitar, corro pro banheiro, mas voê não tá lá pra segurar minha cabeça.
vomito sozinha, sempre, e engul ode novo depois, antes que você chegue, pra que a casa pareça ter estado sempre limpa.
vomito e engulo e vomito de novo. intolerância ao seu leite que você já nem me dá.
e agora vomito de vez, vomito pra sempre, vomito pra fora, com força, pra fora da janela, vomito por cima das casas e prédios, e você vai perdido boiando no vômito, até que eu dê a descarga e pronto.
você já era.
vomito sozinha, sempre, e engul ode novo depois, antes que você chegue, pra que a casa pareça ter estado sempre limpa.
vomito e engulo e vomito de novo. intolerância ao seu leite que você já nem me dá.
e agora vomito de vez, vomito pra sempre, vomito pra fora, com força, pra fora da janela, vomito por cima das casas e prédios, e você vai perdido boiando no vômito, até que eu dê a descarga e pronto.
você já era.
Por não estarem distrídos. Clarice Lispector.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
memórias conjugais, Paulinho da viola.
Lapidar
Foi a sua frase
Proferida de um jeito natural
Registrei esta preciosidade
Sem alarde
No meu livro de memórias conjugais
-“Tenho asas, meu amor, preciso abri-las
Ao seu lado não sou muito criativa”
Depois dessa
Fui em busca do meu antidepressivo
E afundei
No sofá com meus jornais
Minha cara no espelho já diz tudo
Desconfio de um carma secular
Pelo jeito, eu também sou um embrulho
Mas eu juro, deste muro
Amanhã vou me jogar
Resolvi
Vou tomar uma providência
Pra começar, lá no bar do seu José
Para verSe exorcizo este domingo
– céu nublado
E esta mala
Que não larga do meu pé
Foi a sua frase
Proferida de um jeito natural
Registrei esta preciosidade
Sem alarde
No meu livro de memórias conjugais
-“Tenho asas, meu amor, preciso abri-las
Ao seu lado não sou muito criativa”
Depois dessa
Fui em busca do meu antidepressivo
E afundei
No sofá com meus jornais
Minha cara no espelho já diz tudo
Desconfio de um carma secular
Pelo jeito, eu também sou um embrulho
Mas eu juro, deste muro
Amanhã vou me jogar
Resolvi
Vou tomar uma providência
Pra começar, lá no bar do seu José
Para verSe exorcizo este domingo
– céu nublado
E esta mala
Que não larga do meu pé
criatividade
dana redbull na minha água, vai, sem eu perceber. me dá asas, meu bem, que aqui embaixo a coisa tá muito sem graça.
- "Ao seu lado não sou muito criativa"
- "Ao seu lado não sou muito criativa"
terça-feira, 25 de março de 2008
se não cabê-los, como?
estava trancada ali havia semanas, talvez um trimestre, um bimestre, uma quinzena. não tomava banho, vagava pelo lugar de paredes vazias com um camisola longo. fazia calor, suava. fazia frio, tremia. não sabia se comia. a boca guardava sempre o mesmo gosto. gosto de nada, gosto de si, gosto de horas após a refeição. fome não tinha. antes, após se levantar dos lençóis dele, no banheiro, um fio de cabelo vermelho pálido se misturava aos grossos e pretos de seu sexo. um fio de cabelo que não era seu, não era dele. havia mais gente ali. aquela intimidade compartilhada sem permisssão. aquela invasão em seu sexo. aquele fio misturado ao seu próprio cheiro, seus pêlos. se lavou. se lavou. mas guardou o fio dentro de um livro. jamais estivera com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. tempos depois, no cativeiro em que se via já sem se importar muito, a força estava em reservar energia para a dispendiosa paciência. tempos depois passa a mão em seus cabelos. dali sai um fio quase liso, quase branco, quase castanho escuro. e era seu. tempos antes, na casa de alguém que tinha outro alguém, recusou-se a tomar banho no banheiro do outro alguém. mistura de porre com pudor. no dia seguinte, ao tomar banho em seu próprio banheiro, sai de si um fio longuíssimo, um fio que só podia ser do outro alguém. sim, o mundo é redondo.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Drummond
Um dia desses, eu separo um tempinho e ponho em dia todos os choros que não tenho tido tempo de chorar.
http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/poesia.asp?poesiaid=7
http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/poesia.asp?poesiaid=7
pode vir quente
pra quê tanta timidez? bota logo aquele vestido que eu gosto, aquela fita no cabelo, e vem me ver. deixa disso e daquilo, esquece o horário comercial, a dieta de saladas e vem fazer uma festa que pra você aqui é prato a la carte sem fastio. deixa esses livros e artigos pra lá, a lâmpada queimada você troca outro dia, vem logo que meu pavio já tá queimando faz é tempo.
quinta-feira, 20 de março de 2008
cansaço
não adiantava dizer você precisa parar de pensar tanto. o caso do elefante rosa com bolinhas amarelas ou verde com bolinhas roxas enfim, sempre o caso de dizer não pensa nisso e a pessoa pensar justamente o nisso. tic tac toc tic tac toc tic tac toc. geladeira, rede, trombeta, carro, cuspe, nuvem, mulheres, homem, zoológico, tesoura, raiva, faca, morte, morte, morte, bomba, veneno, tiro, pomba ora pombas chutar a pomba dívida externa genealogia política brasileira monges do tibete tartaruguinhas marinhas estuprador filho da puta merece morrer com a pele do pau raspada e depois queimada e depois retalhado criança escola barulho contas devolver o filme. a cabeça passeava olulante pela cidade, não parava de falar. rumor de muro, conversa de sapato com o asfalto.
home sweet home. se olhou no espelho. droga droga DROOOOGAAAAAA de cabeça. não aguentava mais nem o espelho. raspou sobrancelhas. insuficiente. cortou cabelos, caminho de ratos. nada. cicatriz. faltava uma cicatriz. com a gilete, corte transversal no contorno dos lábios. gostou. fez outro e outro e mais. foi riscando a linha dos lábios como um perdido esquecido náufrago risca os dias dentro de uma caverna. porque os dias são sempre iguais então como saber se foram mesmo outros e não os mesmos. saía um sanguinho pequeno, coagulava logo, endurecia, formava um risquinho vermelho escuro embolotado bom de lamber. tinha gosto. tinha relevo. olhou de novo. olhou. olhos. cílios. tesoura. não. pinça. pronto. e ali em pé dormiu quinze minutos que pareceram o do sono de uma vida inteira acordada.
terça-feira, 18 de março de 2008
meu nome é gal gal gal galinha galeão galo de briga caipira na panela
Foi um pequeno momento, um jeito, uma coisa assim
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim, direito
Teria sido na praia o medo
Vai ser um erro, uma palavra, a palavra errada
Nada, nada, basta quase nada
E eu já quase não gosto
E já nem gosto do modo que de repente
Você foi olhada por nós
Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum
Escorpião, sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom
É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande da maior importância
Deve haver uma transa qualquer pra você, e pra mim
Entre nós
E você jogando fora e agora, vai embora, vá!
Deve haver um jeito qualquer, uma hora!
Há sempre um homem pra uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher etc., tal
Assim como existe disco voador e o escuro do futuro
Pode haver o que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor
Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai lhe dizer que fique
Mas você não teve pique, não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique...
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
http://www.youtube.com/watch?v=JWTQ6Eico8E
Era um movimento que aí você não pode mais
Gostar de mim, direito
Teria sido na praia o medo
Vai ser um erro, uma palavra, a palavra errada
Nada, nada, basta quase nada
E eu já quase não gosto
E já nem gosto do modo que de repente
Você foi olhada por nós
Porque eu sou tímido e teve um negócio
De você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum
Escorpião, sagitário, não sei que lá
Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom
É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil
De repente ser uma coisa tão grande da maior importância
Deve haver uma transa qualquer pra você, e pra mim
Entre nós
E você jogando fora e agora, vai embora, vá!
Deve haver um jeito qualquer, uma hora!
Há sempre um homem pra uma mulher
Há dez mulheres para cada um
Uma mulher é sempre uma mulher etc., tal
Assim como existe disco voador e o escuro do futuro
Pode haver o que está dependendo
De um pequeno momento puro de amor
Mas você não teve pique e agora
Não sou eu quem vai lhe dizer que fique
Mas você não teve pique, não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique...
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Lhe dizer que fique
Não sou eu quem vai
Mas você não teve pique
Não sou eu quem vai
http://www.youtube.com/watch?v=JWTQ6Eico8E
always someone missing something beck
something is always missing
something is always missing
something is always missing
someone is always missing
something is always missing
something is always missing
someone is always missing
segunda-feira, 17 de março de 2008
elle a passé tant d'heures sous les sunlights
foi tempo demais sob o sol. foi pra debaixo dele, cedo, esperando. ficou lá encolhida. queria sentir. sai nuvem, sobe sol. sai nuvem, sobe sol. meio dia, sol que não deixa mentir, que não deixa ver, que aperta a cabeça pra baixo. ela esperava aquela pontada do sol por baixo da pele que fazia queimar tudo muito mais abaixo da pele, muito mais, dentro do osso, talvez. aquela queimadura que aperta um botão. que cutuca, que diz vai, levanta, tá vendo isso aqui? você ainda não morreu. e demorou. ela ficou lá encolhida. suor. gotas caindo demoradamente, desenhando rastros de lesmas no seu rosto. gotas previsíveis, mas de onde? era preciso. esperou ainda algumas horas, encolhida, nua, sob o sol. aos passantes os calombos das vértebras e das costelas, já fazendo sombras. aos passantes aquela mulher nua e encolhida sob o sol. aos passantes aquelas gotas. a ela não. ela concentrava em deserto, em mercúrio. queria ser pedra, via areia, mas as gotas as gotas as gotas e ela ia virando salamandra e o sol já não acionava botão nenhum. foi sol demais.
verbe-me
qualquer coisa, qualquer coisa
tell me something sweet
put some sugar on my bowl
me tira dessa cascata de sem-gracices
dessa casca de um amendoim só
qualquer coisa, qualquer coisa
me mostra uma estrela
tira um poema de trás da minha orelha
e uma moeda de vidro rosa do meu nariz
faz desse dia estático um telefonema às 2 da madrugada
me conta safadezas, diz o que fez com a minha calcinha
fala que tava doido pra falar comigo mas não tinha crédito no celular
e diz que não vai me deixar ir embora nem que pra isso tenha que me bater
tell me something sweet
put some sugar on my bowl
me tira dessa cascata de sem-gracices
dessa casca de um amendoim só
qualquer coisa, qualquer coisa
me mostra uma estrela
tira um poema de trás da minha orelha
e uma moeda de vidro rosa do meu nariz
faz desse dia estático um telefonema às 2 da madrugada
me conta safadezas, diz o que fez com a minha calcinha
fala que tava doido pra falar comigo mas não tinha crédito no celular
e diz que não vai me deixar ir embora nem que pra isso tenha que me bater
sábado, 15 de março de 2008
veja cá
cinqüenta gramas de amor
veja lá
é um bocadinho
vinte gramas até
venha cá
é tão pouquinho
eu vou morrer se você não quiser me arranjar um pecadinho
veja lá
é um bocadinho
vinte gramas até
venha cá
é tão pouquinho
eu vou morrer se você não quiser me arranjar um pecadinho
terça-feira, 11 de março de 2008
beria de rio
quem nasce em beira de rio é de pé n'água
é de dedos cravados na terra lamacenta, duvidosa
é de pele de sombra, voz de folha
é de ouvido assovio
é de olho no mar, porque o rio não tem outro destino
é de dedos cravados na terra lamacenta, duvidosa
é de pele de sombra, voz de folha
é de ouvido assovio
é de olho no mar, porque o rio não tem outro destino
do coração tripas
boca de muchiba
não me venha com churumelas
necas de pitipiriba
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_g%C3%ADrias
não me venha com churumelas
necas de pitipiriba
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_g%C3%ADrias
mas ainda
mais ainda
a janela apareceu da nada, se abriu e ficou gigante enquanto a obra da casa avancaca, e depois, nao por culpa dela che sempre tento so de se expandir, teve que ficar, bem menor, mais ainda existente.
http://www.fiorentinas.blogspot.com/
a janela apareceu da nada, se abriu e ficou gigante enquanto a obra da casa avancaca, e depois, nao por culpa dela che sempre tento so de se expandir, teve que ficar, bem menor, mais ainda existente.
http://www.fiorentinas.blogspot.com/
e aposentei os meus agrados
Minhas Razões (Antonio Carlos & Jocafi)
eu tenho cá minhas razões
pra abandonar esse carinho mal-arrumado
naturalmente nem pensou que o nosso amor
anda vencido e protestado
cheguei à triste conclusão dessa união
e aposentei os meus agrados
abasteceu de ingratidão um coração
tremendamente apaixonado
eu tenho cá minhas razões
pra abandonar esse carinho mal-arrumado
naturalmente nem pensou que o nosso amor
anda vencido e protestado
cheguei à triste conclusão dessa união
e aposentei os meus agrados
abasteceu de ingratidão um coração
tremendamente apaixonado
segunda-feira, 10 de março de 2008
falo e calo
eu falo
você olha
você olha
você estranha
você se esforça
eu falo. eu falo. eu falo.
FA-LO.
você não entende
calo.
meu calo.
você olha
você olha
você estranha
você se esforça
eu falo. eu falo. eu falo.
FA-LO.
você não entende
calo.
meu calo.
bilhetinho azul
meu irmão, brother,
pra mim você venceu. venceu, venceu, venceu o prazo de validade.
o leite talhou ado-ado-ado o seu leite é estragado.
você voltou a feder a todas as bucetas de banheiro que você já chupou (mal).
e escovar os dentes não resolve. lavou não tá novo. e você tá velho.
como as pedras que rolam na estrada, meu bem.
e essa ânsia de vômito eu passo. passo e repasso.
passar bem.
pra mim você venceu. venceu, venceu, venceu o prazo de validade.
o leite talhou ado-ado-ado o seu leite é estragado.
você voltou a feder a todas as bucetas de banheiro que você já chupou (mal).
e escovar os dentes não resolve. lavou não tá novo. e você tá velho.
como as pedras que rolam na estrada, meu bem.
e essa ânsia de vômito eu passo. passo e repasso.
passar bem.
meu coração de papel
de papel carbono
de papel celofane
de papel machê
papel de pão
de papel higiênico
de papel de folhetim
de papel celofane
de papel machê
papel de pão
de papel higiênico
de papel de folhetim
domingo, 9 de março de 2008
Marcha do sol nas regiões temperadas. Moacyr Scliar.
Hospeda-se numa pensão - e durante três dias não consegue sair: chora sem parar. Chora pela filha. Chora pelo pai. Chora pela irmã. Chora por si mesma. Chora, chora: todas as lágrimas que conteve em meses, agora brotam em jorro.
Na manhã do terceiro dia, pára subitamente de chorar. Chega, diz com determinação. Agora vamos ao que interessa.
---
Ah, São Paulo. Ah, o Brasil. Tudo vai bem no Brasil, é o que ela ouve dizer: este país tem de tudo, automóveis, rádios, bicicletas. O presidente é risonho e simpático. Aqui só não vai pra frente quem não quer, garantiu-lhe a dona da pensão, acrescentando:
- Mas cuidado para não cair na vida.
Não cairá, seu destino foi traçado sob o sol bondoso de Santa Catarina: para o norte e para cima. Atravessa rua, compra um jornal e percorre os anúncios de emprego.
feng shui
eu vou limpar a casa. livros emprestados, cartas não-enviadas, desenhos em guardanapo. tudo na caixinha na dispensa. vou parar de fumar. vou comer mais salada. vou ler mais. vou comprar mais livros, mais revistas. vou cuidar do meu cabelo. vou cuidar do meu coração. faxina nele. regar com água insípida. esfregar. quarar. brotar um jardim só de flores novas.
vou arranajr um emprego. vou arrumar uma casa. vou ter plantas. vou aprender a cozinhar. vou comer nos horários certos. vou fazer meus exames regularmente. não vou tomar mais doce. vou beber menos. vou escutar mais música, música nova. vou viajar mais, te comprar uns bibelôs do chuí. vou fazer faça você mesmo e vai ficar bonito. vou fazer depilação definitiva. vou visitar minha família. vou passar um tempo no mato. vou experimentar o budismo. tantra. vou comprar uma barraca de camping. vou acampar. vou ficar saudável. aí sim.
vou arranajr um emprego. vou arrumar uma casa. vou ter plantas. vou aprender a cozinhar. vou comer nos horários certos. vou fazer meus exames regularmente. não vou tomar mais doce. vou beber menos. vou escutar mais música, música nova. vou viajar mais, te comprar uns bibelôs do chuí. vou fazer faça você mesmo e vai ficar bonito. vou fazer depilação definitiva. vou visitar minha família. vou passar um tempo no mato. vou experimentar o budismo. tantra. vou comprar uma barraca de camping. vou acampar. vou ficar saudável. aí sim.
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