terça-feira, 22 de abril de 2008

tatuagem de chiclete

quero ficar no teu corpo feito tatuagem de chiclete que é pra te dar coragem de chupar o chiclete rápido até ele ficar duro e você grudá-lo embaixo do banco do ônibus enquanto observa uma nuca bonita tocada por mãos delicadas, a meio palmo do seu nariz. você vai tentar sentir o cheiro, mas o danado do chiclete duro vai grudar um hortelã na sua otorrinolaringologia e você não vai sentir nada com o nariz com a boca ou com os ouvidos. destinado a viver apenas com o que os olhos vêem minha praga do chiclete vai acompanhada de uma tatuagem em forma de mordida que te marcará o corpo apenas pelo tempo breve que antecede toda ida sem despedida.

*ver: fotolog de lettuce

quarta-feira, 16 de abril de 2008

terça-feira, 15 de abril de 2008

faz falta

fastio na fartura das faltas
a falta cresce apertando de dentro pra fora
um grande buraco negro ressugando a pele e as artérias
levando tudo pra não sei onde
e deixando esse inconsolável vazio
a vida há de ser mais que isso

quarta-feira, 9 de abril de 2008

equilíbrio

o segredo é segurar a tragédia do lado de lá soprando devagar pro fôlego bastar

sábado, 5 de abril de 2008

desperate housewife

Colocou o gato no microondas. Silêncio. Mas um pequeno barulho ao redor. Talvez no corredor. Podem ser passos. Morde os lábios, range os dentes e já não controla o tique que junta nariz e boca numa careta única, freneticamente várias caretas por segundo. Agora só o barulho do prato do microondas rodando. Certo, estão todos na sala de jantar. Pode ouvir as risadas comedidas e sociais, risadas de sofá de sala de espera. E ela lá, na cozinha. Precisava fazer alguma coisa. Não podia se cortar com a gilete nem afundar as unhas na palma da mão porque sangue demora a coagular. Já o gato, ali no microondas, sempre poderia parecer um descuido, um lapso. Hora do chá, ok. Chá preto, assim pode colocar o pozinho de baixo do fogão que ela NÂO LIMPOU! Alforria. Ela não limpou embaixo do fogão e guarda aquele pó com grãos de arroz, tudo emaranhado em alguns fios de cabelo engordurados como se fosse seu sutiã queimado. Vai pegar a bandeja. mas não sabe que vontade louca se lhe dá, que começa a bater o inox na pia. bate, bate, bate até entorta a bandeja ou ensurdecer. Hum, falta a toalhinha da bandeja. Vai ao banheiro e pega a cueca dele, aquela suja atrás que ele não tem o pudor de lavar antes que ela veja. Então é pra ver? Pois vai ser vista. Bandeja, xícaras e chá.
- Está servido.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Rosa

a Rosa tava lá no balcão, olhando pr'aqueles dedos com esmalte descascado. esmalte vermelho. ela olhava, roía um pouco mais o esmalte, comia um amendoim que era de graça. tomava cachaça, que era quase de graça. maltrapilha e maltratada, Rosa já nem sabia se se vestia, poderia ser uma calça aquela camisa com a qual ela tentava cobrir o que diziam ser suas vergonhas. suas vergonhas. Rosa ri. pras suas vergonhas não há roupa, camisa de força ou lona de caminhão que sirva. e brinca com a unha descascada fazendo ondinhas circulares na cachaça à sua frente. vergonha. e Rosa ri de novo. a vergonha foi a de ter tido vergonha. e de novo olha pro velho papel amassado.
"Rosa nasceu de um anúncio na sessão de encontros românticos e ofertas eróticas de um jornal semanal. Moça comum, de gestos comuns. Olhos assimétricos, é verdade. Mas não há nada de incomum nisto. Incomum mesmo era aquela pretura toda que ela tinha na retina. Olhos escuros são lugar comum? Ah, eu moraria feliz nesse lugar comum. Sem varanda ou piscina. Sem conforto, banheira ou balanço. Viveria tranquilo entre a íris ou a córnea de Rosa. Passeando por cada filme, foto ou memória que ela visse. Deslizando olho adentro nos dias de êxtase, e me dependurando nos cílios em dias de choro. Cada noite de sono seria uma gestação. Eu feto e Rosa mãe, com sua placenta ocular. E cada manhã nascer. Sem batismo ou cerimônia... nascer pra ela."
(crédito: assinava o papel amassado: http://borboletademariana.blogspot.com/)