quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

cama mesa e banho

Naquele dia Norma chegou e disse que a minha mulher era feia e burra; que não era mulher para mim, que era uma burguesa (isso para Norma é uma ofensa): que ela, Norma, não queria continuar levando comigo aquela vida clandestina. Isso tudo num restaurante. (Pouco antes de entrar nesse restaurante, à duas horas da tarde, hora em que não tem mais ninguém, eu verificara, sozinho, se não havia algum conhecido; não havia, mas mesmo assim escolhera uma mesa de canto, meio escondida. Isso a deixou muito irritada.) “Você é um pulha, um pusilânime, um sem-caráter, um covarde, um mentiroso.” O beiço arreganhado, os dentões enormes da frente aparecendo. “Você tem cara de cavalo”, disse eu, desesperado. O que fez com que ela se irritasse ainda mais e jogasse – plaft – na minha cara um prato de azeitonas e rabanetes. (Os garçons me limparam como se nada tivesse acontecido e trouxeram um outro prato de azeitonas e rabanetes – plaft – que ela jogou também na minha cara e isso teria continuado indefinidamente se o garçom, ainda com um ar de que nada havia acontecido, não parasse de trazer azeitonas e rabanetes. Essa é a vantagem dos restaurantes de classe: nada surpreende os garçons, a não ser uma gorjeta pequena.)

Relatório de Carlos - Rubem Fonseca

domingo, 14 de dezembro de 2008

eu vou deixar a raiva de você crescer junto com todos os pelos. vou ficar sem tomar banho uma semana, e todo o grude pegando na pele. vou parar de lavar os cabelos, vou colocar piolhos. vou descascar perebas, vou pegar bicho de pé, não vou escovar os dentes, vou juntar meleca embaixo das unhas, não vou cortar as unhas, vou roer as unhas, vou me mijar, vou me cagar, vou me vomitar e em uma semana, seu veado, em uma semana eu vou me depilar de você num banho só. e vou dar pro primeiro que aparecer. mas vou dar tão lindo, mas vou dar tão gostoso, que você vai se revirar na cama quando me sonhar dizendo pra ele as mesmas mumunhas de nós dois. ou de nós três, no caso.
It's a long way
It’s a long
It’s a long lenga lenga lenga lenga lenga lenga
It's a long way
It's a long

É lágrima demais pra pouco olho
É olho demais pra pouco mar
É mar demais pra pouco peixe

Um dia a Mathilde vai embora. Ela sabe que vai. Todo mundo vai. É questão de tempo, ela se consola. Ou de bebida. E ela canta e se consola de novo. A Mathilde vai que vai dar certo. Ela vai pegar carona com o João do caminhão, que fica ali no posto só olhando pro cofrinho dela, quando ela se abaixa pra mostrar o decote pro Manéu. Mas enquanto ela não vai, ela fuma um cigarro de cinco minutos, um atrás do outro, cinco atrás de cinco. E aí fica mais fácil. Porque ela já sabe o que fazer com as mãos quando o João chamar. Uma fica no quadril, a outra rebola pra trás uma piola acesa na bomba do Manéu.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

tico teco e nino
tic tac
toc toc