terça-feira, 25 de março de 2008
se não cabê-los, como?
estava trancada ali havia semanas, talvez um trimestre, um bimestre, uma quinzena. não tomava banho, vagava pelo lugar de paredes vazias com um camisola longo. fazia calor, suava. fazia frio, tremia. não sabia se comia. a boca guardava sempre o mesmo gosto. gosto de nada, gosto de si, gosto de horas após a refeição. fome não tinha. antes, após se levantar dos lençóis dele, no banheiro, um fio de cabelo vermelho pálido se misturava aos grossos e pretos de seu sexo. um fio de cabelo que não era seu, não era dele. havia mais gente ali. aquela intimidade compartilhada sem permisssão. aquela invasão em seu sexo. aquele fio misturado ao seu próprio cheiro, seus pêlos. se lavou. se lavou. mas guardou o fio dentro de um livro. jamais estivera com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. tempos depois, no cativeiro em que se via já sem se importar muito, a força estava em reservar energia para a dispendiosa paciência. tempos depois passa a mão em seus cabelos. dali sai um fio quase liso, quase branco, quase castanho escuro. e era seu. tempos antes, na casa de alguém que tinha outro alguém, recusou-se a tomar banho no banheiro do outro alguém. mistura de porre com pudor. no dia seguinte, ao tomar banho em seu próprio banheiro, sai de si um fio longuíssimo, um fio que só podia ser do outro alguém. sim, o mundo é redondo.
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