Todas as sextas, horário do almoço, ela passava nos Correios. Chegava sempre com algumas cartas e voltava com outras mais. Eu, que almoçava ali perto, comecei a notar a rotina. Ela usava sempre uma saia rosa clarinho, com as flores já desbotadas, e uma blusa amarela ou lilás. Devia ser a roupa da sexta. Ela tinha mesmo cara de quem separava as roupas conforme os dias da semana, como os panos de prato bordados com Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado e Domingo. Toda sexta ela vai para o Correio, assim. Após algum tempo, decidi coincidir de estar nos Correios na hora dela. Estava lá tirando uma xerox de nada, quando, enfim, ela apareceu. Não se atrasou. Como eu disse, parecia dessas pessoas certinhas e, se atrasasse o correio, atrasaria o trabalho de depois. Foi assim que aconteceu e eu descobri o segredo daquela mulher com jeito de menina, magrinha... acanhada, operária. Nos Correios ela era conhecida como 'a moça da posta-restante', alguns diziam mesmo 'a posta-restante'. Não que não soubessem seu nome. Acontece que, quando o descobriram, através de algum gaiato a quem ela timidamente respondeu 'Maria', a Posta-restante já havia pegado... e ficado. Pois então, a Posta-restante era essa moça não menos moça por conta dos quarenta anos não-vividos. Toda sexta ela ia aos Correios recolher as cartas que ficavam na posta-restante. Essas cartas de alguém pra alguém que não apareceu, que ficam ali entre arquivos e repartições, esperando o príncipe no cavalo branco ou a reciclagem. Toda sexta Maria pegava as cartas a que responderia em uma semana, sem falta. Não escrevia no remetente mais que posta-restante, apesar de assinar as cartas como Maria. Satisfeito com minha curiosidade satisfeito, voltei a minha rotina do almoço. Não por muito tempo. É que Maria levava e trazia cada vez mais cartas. As cartas aumentaram tanto, mas tanto, que Maria começou a carregá-las numa sacola plástica de supermercado. A quantidade de sacolas aumentava em mais uma a cada mês. As cartas se multiplicavam, as sacolas se somavam e Maria se diminuía com o peso do tanto que carregava. E as cartas não paravam de chegar... Maria começou a ir aos Correios mais freqüentemente. Às terças, quintas e sextas. Às segundas, terças, quintas e sextas. Até que começou a ir todos os dias, e cada vez com mais sacolas. Eu pensava comigo: "Afe Maria, que Maria não dá conta..." Mas Maria dava. Arranjou até um gentil funcionário que a ajudava a carregar as então incontáveis sacolas. Maria parecia cada vez mais pequenina, dada a pressa com que movimentava aquelas pernas tão curtinhas. Só que eu comecei a estranhar Maria. Parecia agressiva. Como quem está numa guerra, como se se dissesse: "Eu consigo, eu venço essas cartas". E eu fui ficando com medo de Maria e daquela sua saia rosa que nem parecia mais tão desbotada. Eu comecei a sonhar que Maria era um dia soterrada por um caminhão de cartas, que as cartas formavam uma piscina e que Maria se afogava... mas era Maria que dirigia o caminhão e Maria era eu! Então eu acordava sobressaltado e sobressaltando da cama, respirando fundo, com força, como um guincho de baleia pra dentro.. Fiquei deveras impressionado com tudo isso. Esses sonhos e pesadelos começaram a se repetir e eu comecei a não dormir para não sonhar e, em pouco tempo, já estava tão fisicamente debilitado pelas poucas horas mal dormidas e pela constante visão daquela rotina absurda de Maria, surrealista já de tantas cartas, que tive a idéia de escrever-lhe. "Como não pensei nisso antes", pensei afinal, já que toda idéia que parece boa parece sempre também muito óbvia. E era. Então escrevi para a 'Posta-restante'. Usei um envelope vermelho para conseguir identificá-lo nas sacolas de Maria. Fiquei de tocaia, ansioso, esperando que Maria aparecesse para receber minha carta. Se todo mundo tinha direito a uma resposta, por que não eu? Mas Maria não veio nesse dia. E eu chorei nesse dia. Maria não veio no dia seguinte. E eu chorei de novo. A cada dia a ausência de Maria parecia crescer e ficar do tamanho de Maria e suas sacolas. A cada dia eu chorava mais lágrimas que as carregadas nas sacolas de Maria. Até que um pensamento, por fim, me conteve o choro. Que seria feito daquelas cartas todas, na posta-restante? Era preciso resolver o problema das cartas. Algo tem que ser feito, é necessário... ALGUÉM TEM QUE FAZER ALGUMA COISA! Calmantes. Após sete dias, voltei aos Correios. Envergonhado, apesar de brilhar certo heroísmo. Por sorte, os funcionários dos Correios já estavam com a posta-restante tão atolada que não tiveram a menor cerimônia em passá-las todas para mim. Quando finalmente consegui levá-las todas para casa, vi-me em uma quitinete encartada até o teto. Havia cartas até nas panelas. Eu sabia que precisaria responder a todas, senão não conseguiria dormir. E assim comecei a responder, a responder e responder. Respondia sem fim. Minhas canetas acabaram e eu pedi algumas emprestadas aos vizinhos. Já andava descabelado, não escovava os dentes e os vizinhos já deixavam pratos de comida na minha porta. Mas eu não tinha vontade de comer. Só precisava ler e responder àquelas pessoas que precisavam de mim. Precisavam de mim! No dia em que finalmente terminei todas as cartas, fui correndo remetê-las. Minhas mãos tremiam. Parecia que eu ia perder um prazo. Os funcionários estranharam apenas minha aparência. A quantidade de cartas não. Me olhavam como crianças olham velhas que acreditam ser bruxas. Foi com esse olhar que me entregaram o novo lote da posta-restante. Voltei para casa apressado. Minhas pernas pareciam se encurtar. Eu precisava responder as minhas cartas. Dessa vez não consegui subir todas as cartas. Boa parte deixei na portaria. Não iria sair mesmo. Entrei em casa e, dessa vez, havia cartas no chuveiro, em cima dos armários e saindo por debaixo da porta onde deveriam ter entrado. E comecei. Respondi, respondi, respondi. Fui escrevendo e escrevendo... mas as cartas cupulavam, se multiplicavam, pariam. Elas cresciam e eu dizia: "Calma! Já estou acabando, estou respondendo, estou respondendo..." E o apartamento foi ficando apertado, as cartas foram ficando apertadas, eu fui sufocando e, vendo que não tinha mais como, comecei a nadar para tentar fugir. Nadei, nadei, nadei. O oxigênio foi se acabando, eu comecei a me engasgar e... "a janela!" Foi a última coisa que consegui pensar, já que o ar parecia ser composto de super-envelopes gigantes incapazes de me entrar pelas narinas ou pela boca, mas que me espremiam como as cartas. Foi quando um envelope vermelho vivo se abriu e, num meu puxar desesperado de fôlego, colou na minha cara. Ainda pude ler: ao 'rapaz do restaurante'. Tal foi o destino do destinatário.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário