Naquele dia Norma chegou e disse que a minha mulher era feia e burra; que não era mulher para mim, que era uma burguesa (isso para Norma é uma ofensa): que ela, Norma, não queria continuar levando comigo aquela vida clandestina. Isso tudo num restaurante. (Pouco antes de entrar nesse restaurante, à duas horas da tarde, hora em que não tem mais ninguém, eu verificara, sozinho, se não havia algum conhecido; não havia, mas mesmo assim escolhera uma mesa de canto, meio escondida. Isso a deixou muito irritada.) “Você é um pulha, um pusilânime, um sem-caráter, um covarde, um mentiroso.” O beiço arreganhado, os dentões enormes da frente aparecendo. “Você tem cara de cavalo”, disse eu, desesperado. O que fez com que ela se irritasse ainda mais e jogasse – plaft – na minha cara um prato de azeitonas e rabanetes. (Os garçons me limparam como se nada tivesse acontecido e trouxeram um outro prato de azeitonas e rabanetes – plaft – que ela jogou também na minha cara e isso teria continuado indefinidamente se o garçom, ainda com um ar de que nada havia acontecido, não parasse de trazer azeitonas e rabanetes. Essa é a vantagem dos restaurantes de classe: nada surpreende os garçons, a não ser uma gorjeta pequena.)
Relatório de Carlos - Rubem Fonseca
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
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