terça-feira, 1 de abril de 2008

Rosa

a Rosa tava lá no balcão, olhando pr'aqueles dedos com esmalte descascado. esmalte vermelho. ela olhava, roía um pouco mais o esmalte, comia um amendoim que era de graça. tomava cachaça, que era quase de graça. maltrapilha e maltratada, Rosa já nem sabia se se vestia, poderia ser uma calça aquela camisa com a qual ela tentava cobrir o que diziam ser suas vergonhas. suas vergonhas. Rosa ri. pras suas vergonhas não há roupa, camisa de força ou lona de caminhão que sirva. e brinca com a unha descascada fazendo ondinhas circulares na cachaça à sua frente. vergonha. e Rosa ri de novo. a vergonha foi a de ter tido vergonha. e de novo olha pro velho papel amassado.
"Rosa nasceu de um anúncio na sessão de encontros românticos e ofertas eróticas de um jornal semanal. Moça comum, de gestos comuns. Olhos assimétricos, é verdade. Mas não há nada de incomum nisto. Incomum mesmo era aquela pretura toda que ela tinha na retina. Olhos escuros são lugar comum? Ah, eu moraria feliz nesse lugar comum. Sem varanda ou piscina. Sem conforto, banheira ou balanço. Viveria tranquilo entre a íris ou a córnea de Rosa. Passeando por cada filme, foto ou memória que ela visse. Deslizando olho adentro nos dias de êxtase, e me dependurando nos cílios em dias de choro. Cada noite de sono seria uma gestação. Eu feto e Rosa mãe, com sua placenta ocular. E cada manhã nascer. Sem batismo ou cerimônia... nascer pra ela."
(crédito: assinava o papel amassado: http://borboletademariana.blogspot.com/)

Um comentário:

Anônimo disse...

lindo lindo

acho q tem dias em q a gente so quer ser bulido, tocado
vc conseguiu =~
=)

=o****