segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

um armário pequeno

Escovando os dentes ali, de frente ao espelho, pagava de protagonista. Cada gesto fotografável, descritível, pintável. Um olho meio triste, meio distante, meio pedindo. Tudo podia virar objeto. Olhava pra um ponto qualquer, mas afinava os ouvidos. Cada passo, cada espirro, cada mínimo gesto me parecia um evento. E saía pisando descalça sobre os pêlos cortados sobre o chão. Devia ter uma coisa muito ruim naqueles pés, porque depois que o dedão largava o chão, nada mais havia pra trás dele. E se vestia lentamente, olhava os seios no espelho da maçaneta, subia e descia. Tô gorda. Tô magra. E jamais alguém lhe faria uma declaração de amor que superasse as suas próprias.