porque mulher tem pacto com o mar
ó morena do mar
e eu ainda guardo a conchinha que você me deu
junto ao 3x4 teu
no plástico da carteira
sexta-feira, 30 de maio de 2008
quinta-feira, 29 de maio de 2008
embora
quando você for embora, meu bem, não me mande carta. faça como na música: esteja morta. não me conte do quão nem do tão da vida de lá.
quando você for embora, meu bem, leve por favor tudo o que for seu. seu cheiro, seu barulho, sua cor. seus amigos e todas as pessoas que nos viram juntos.
quando você for embora, meu bem, não me prometa nada. e, ainda que queira me apresentar a sua confusão, traga-me sempre uma decisão dura, dessas para as quais não reste outra saída a não ser resignar-se.
quando você for embora, meu bem, não vou te mandar pro diabo que te carregue. não vou fazer greve de fome, guerrilha ou motim: como na música.
quando você for embora, meu bem, vou me perguntar se as lágrimas que chorei foram mesmo por você, ou por mim: como na música.
embora quando você for.
quando você for embora, meu bem, leve por favor tudo o que for seu. seu cheiro, seu barulho, sua cor. seus amigos e todas as pessoas que nos viram juntos.
quando você for embora, meu bem, não me prometa nada. e, ainda que queira me apresentar a sua confusão, traga-me sempre uma decisão dura, dessas para as quais não reste outra saída a não ser resignar-se.
quando você for embora, meu bem, não vou te mandar pro diabo que te carregue. não vou fazer greve de fome, guerrilha ou motim: como na música.
quando você for embora, meu bem, vou me perguntar se as lágrimas que chorei foram mesmo por você, ou por mim: como na música.
embora quando você for.
terça-feira, 20 de maio de 2008
sérgio mello
" eu vou te esperar sempre
sentado numa estação desativada
ao lado da bilheteria
usando um cachecol com as cores da bandeira jamaicana
até que um dia ouvirei o doce ruído das hélices
até que um dia conseguirei abrir o guarda-chuva
e lá estará você acenando num velho Kadet enlameado
com bolas de praia e mochilas tapando o vidro traseiro
dizendo que mudou de idéia"
sentado numa estação desativada
ao lado da bilheteria
usando um cachecol com as cores da bandeira jamaicana
até que um dia ouvirei o doce ruído das hélices
até que um dia conseguirei abrir o guarda-chuva
e lá estará você acenando num velho Kadet enlameado
com bolas de praia e mochilas tapando o vidro traseiro
dizendo que mudou de idéia"
sexta-feira, 16 de maio de 2008
o diário das horas perigosas
cada dia com seus medos, sua dor, sua solidão.
mas o carnaval há de chegar.
ah se há.
mas o carnaval há de chegar.
ah se há.
depois da carta do menino da maçã
Nasceu sem chorar, sem fazer barulho, parto normal e sem dor, olhos arregalados de quem espia. Passeava na praça, sempre às 9 horas. Um dia, esses olhos arregalados que a terra não há de comer por falta de apetite o viram. Ele passava no meio do cinza, como num filme, crac-crac nas folhas secas. Nesse dia, ela enxergou colorido. Era daltônica, culpa do pai, torcedor do Náutico, que numa raiva arrancou todo verde e vermelho que tinha metido na casa e tudo passou a tons de cinza. A praça, a luz, as pessoas tudoainda cinzas, mas ele era diferente e ela nem sabia que nome dar àquilo tudo que ele exalava. Cheiro de homem, talvez.
A praça estava no ruge-ruge e a kombi descarregava as flores na loja. Ele foi se abaixando de-va-gar-zi-nho e catou uma flor, caída no chão. Slowmotion, até que lhe escapou um grito. Fino, suspirado, mas grito: a flor se molhava de um cinza muito esquisito, havia algo de errado com a luz. Desconfiou dos lados. Estranho, ninguém notou nada. Que bom, ninguém ouviu. Nesse dia não dormiu. No dia seguinte, arranjou trabalho na loja. Era muito cheiro, a cabeça chegava a doer, mas era como abrir os braços e girar bem rápido. Era bom.
No outro dia, no ônibus, teve uma idéia que parecia tão ousada, que enrubeceu. Ele passava por ali todos os dias, ele pegava todas as flores. Nunca vira olhões tão estranhos como os daquela menina da lojinha. Umas bolotas de azul transparente, quase dava medo. Mas veio a neve, foram-se as flores. Joseph, mal-humorado com sua insônia improdutiva, decidiu entrar na lojinha e cobrar suas flores. Passou das 9 da manhã às 3 da tarde rondando pela praça, tremendo de frio, ensaiando a melhor maneira de descobrir o que tinha acontecido.
Disse um boa trade nervoso. Ela respondeu um boa tarde assustado. Ele atacou com um “tudo bem?” Ela retorquiu, na lata: “tudo. e você?” Eles se olharam desconfiados. Joseph ficou atrapalhado com aquelas bolotas e começou a futricar nas flores todas. “tô procurando flores. qual o seu nome?” Ela, espantada com tudo que via, porque Joseph ia tocando as flores uma a uma, fazendo uma confusão do que só então ela entendia que era cor, respondeu em meio-tom, com os olhos ainda mais arregalados, e ele ouviu só a metade: “ Mari... ana. E o seu?” Ele achou Ana um nome tão lindo que... “meu nome é oto. oto, com um 't' só”, e torceu para que ana pronunciasse sua próxima palavra. "como ana", pensou mariana sorrindo.
a difícil tarefa de caber
R. deu um pé de pimenta, um livro e um sabonete de mel pra lavar as mãos.
R. deu o tempo arranjado entre seus horários confundidos.
R. deu o sono que tinha e o castanho de alguns fios de cabelo.
R. empinou a coluna pra parecer menos duvidoso.
R. deu os confeitos e os confetes que tinha pra dar.
Mas T. não teve pique
nem pica
pra R.
R. deu o tempo arranjado entre seus horários confundidos.
R. deu o sono que tinha e o castanho de alguns fios de cabelo.
R. empinou a coluna pra parecer menos duvidoso.
R. deu os confeitos e os confetes que tinha pra dar.
Mas T. não teve pique
nem pica
pra R.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
verbo
infinitivamente pessoal no singular seguir doido por uma língua que possa dizer o que você quer escutar que é tudo que no fim eu vou querer dizer. subjetivamente subjuntivo feito a-tentado calado que de tanto ter sido não sabe mais mudar de tempo. e que dizer do gerúndio apenas que ela não pronunciava os dês cantano bebeno trepano.
F. de papel
F. em mais um momento de lucidez. F. sentada, parada. F. olhando a marcha das bonecas de papel. F. lendo os escritos das bonecas de papel. F. boneca de papel.
F. ficou branca como uma folha de papel. F. quase molha o papel. Mas F. chorou foi um rio e se desdobrou em barco.
F. ficou branca como uma folha de papel. F. quase molha o papel. Mas F. chorou foi um rio e se desdobrou em barco.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
bilhete
a vontade era de escrever um bilhete com aquela poesia do Bruno do paperblackcell -pouco depois do autocarro sair da gare, ela, no caderno escuro, escrevia a lápis: dentro de dois dias, chegar será o meu modo de dizer sim. (e sublinhou a palavra) - mas aí eu não escrevi, nem avisei e eu cheguei. e você não estava. sem papel ou palavras, serviu a folha da agenda, com um passei por aqui de carteiras de colégio. serviu? até te chamei alto. será que você dormia? será que dormia só? será que não queria? será... sei lá. saí dali não com a vista embassada como eu poderia ter imaginado dos filmes cheios de portas fechadas e escadas compridas. saí lúcida e comovida ao mesmo tempo. ciente, talvez. quando mais tarde você me chamou, o mundo já tinha rotado dez mil anos em uma hora e vinte e dois minutos, e o estômago junto. as palavras nunca bastam. não soube mais o que fazer. me deitei ao seu lado. fiquei ali tentando sentir o coração bater muito. falar sem tremer a voz. reconhecer. mas eu não te conheço. e às vezes sua dor parece fingida. e ainda havia um fio de cabelo grudado na sua parede. não estava lá antes. meu? pensei que podia ser. peguei, deslizei na textura. bem podia. mas bem podia ser eu me enganando de novo, trocando evidência por sinal e sinal por supertição e supertição por coisa de gente irracional. eu que não sou irracional... bem podia.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
as cartas de maria
Todas as sextas, horário do almoço, ela passava nos Correios. Chegava sempre com algumas cartas e voltava com outras mais. Eu, que almoçava ali perto, comecei a notar a rotina. Ela usava sempre uma saia rosa clarinho, com as flores já desbotadas, e uma blusa amarela ou lilás. Devia ser a roupa da sexta. Ela tinha mesmo cara de quem separava as roupas conforme os dias da semana, como os panos de prato bordados com Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta, Sábado e Domingo. Toda sexta ela vai para o Correio, assim. Após algum tempo, decidi coincidir de estar nos Correios na hora dela. Estava lá tirando uma xerox de nada, quando, enfim, ela apareceu. Não se atrasou. Como eu disse, parecia dessas pessoas certinhas e, se atrasasse o correio, atrasaria o trabalho de depois. Foi assim que aconteceu e eu descobri o segredo daquela mulher com jeito de menina, magrinha... acanhada, operária. Nos Correios ela era conhecida como 'a moça da posta-restante', alguns diziam mesmo 'a posta-restante'. Não que não soubessem seu nome. Acontece que, quando o descobriram, através de algum gaiato a quem ela timidamente respondeu 'Maria', a Posta-restante já havia pegado... e ficado. Pois então, a Posta-restante era essa moça não menos moça por conta dos quarenta anos não-vividos. Toda sexta ela ia aos Correios recolher as cartas que ficavam na posta-restante. Essas cartas de alguém pra alguém que não apareceu, que ficam ali entre arquivos e repartições, esperando o príncipe no cavalo branco ou a reciclagem. Toda sexta Maria pegava as cartas a que responderia em uma semana, sem falta. Não escrevia no remetente mais que posta-restante, apesar de assinar as cartas como Maria. Satisfeito com minha curiosidade satisfeito, voltei a minha rotina do almoço. Não por muito tempo. É que Maria levava e trazia cada vez mais cartas. As cartas aumentaram tanto, mas tanto, que Maria começou a carregá-las numa sacola plástica de supermercado. A quantidade de sacolas aumentava em mais uma a cada mês. As cartas se multiplicavam, as sacolas se somavam e Maria se diminuía com o peso do tanto que carregava. E as cartas não paravam de chegar... Maria começou a ir aos Correios mais freqüentemente. Às terças, quintas e sextas. Às segundas, terças, quintas e sextas. Até que começou a ir todos os dias, e cada vez com mais sacolas. Eu pensava comigo: "Afe Maria, que Maria não dá conta..." Mas Maria dava. Arranjou até um gentil funcionário que a ajudava a carregar as então incontáveis sacolas. Maria parecia cada vez mais pequenina, dada a pressa com que movimentava aquelas pernas tão curtinhas. Só que eu comecei a estranhar Maria. Parecia agressiva. Como quem está numa guerra, como se se dissesse: "Eu consigo, eu venço essas cartas". E eu fui ficando com medo de Maria e daquela sua saia rosa que nem parecia mais tão desbotada. Eu comecei a sonhar que Maria era um dia soterrada por um caminhão de cartas, que as cartas formavam uma piscina e que Maria se afogava... mas era Maria que dirigia o caminhão e Maria era eu! Então eu acordava sobressaltado e sobressaltando da cama, respirando fundo, com força, como um guincho de baleia pra dentro.. Fiquei deveras impressionado com tudo isso. Esses sonhos e pesadelos começaram a se repetir e eu comecei a não dormir para não sonhar e, em pouco tempo, já estava tão fisicamente debilitado pelas poucas horas mal dormidas e pela constante visão daquela rotina absurda de Maria, surrealista já de tantas cartas, que tive a idéia de escrever-lhe. "Como não pensei nisso antes", pensei afinal, já que toda idéia que parece boa parece sempre também muito óbvia. E era. Então escrevi para a 'Posta-restante'. Usei um envelope vermelho para conseguir identificá-lo nas sacolas de Maria. Fiquei de tocaia, ansioso, esperando que Maria aparecesse para receber minha carta. Se todo mundo tinha direito a uma resposta, por que não eu? Mas Maria não veio nesse dia. E eu chorei nesse dia. Maria não veio no dia seguinte. E eu chorei de novo. A cada dia a ausência de Maria parecia crescer e ficar do tamanho de Maria e suas sacolas. A cada dia eu chorava mais lágrimas que as carregadas nas sacolas de Maria. Até que um pensamento, por fim, me conteve o choro. Que seria feito daquelas cartas todas, na posta-restante? Era preciso resolver o problema das cartas. Algo tem que ser feito, é necessário... ALGUÉM TEM QUE FAZER ALGUMA COISA! Calmantes. Após sete dias, voltei aos Correios. Envergonhado, apesar de brilhar certo heroísmo. Por sorte, os funcionários dos Correios já estavam com a posta-restante tão atolada que não tiveram a menor cerimônia em passá-las todas para mim. Quando finalmente consegui levá-las todas para casa, vi-me em uma quitinete encartada até o teto. Havia cartas até nas panelas. Eu sabia que precisaria responder a todas, senão não conseguiria dormir. E assim comecei a responder, a responder e responder. Respondia sem fim. Minhas canetas acabaram e eu pedi algumas emprestadas aos vizinhos. Já andava descabelado, não escovava os dentes e os vizinhos já deixavam pratos de comida na minha porta. Mas eu não tinha vontade de comer. Só precisava ler e responder àquelas pessoas que precisavam de mim. Precisavam de mim! No dia em que finalmente terminei todas as cartas, fui correndo remetê-las. Minhas mãos tremiam. Parecia que eu ia perder um prazo. Os funcionários estranharam apenas minha aparência. A quantidade de cartas não. Me olhavam como crianças olham velhas que acreditam ser bruxas. Foi com esse olhar que me entregaram o novo lote da posta-restante. Voltei para casa apressado. Minhas pernas pareciam se encurtar. Eu precisava responder as minhas cartas. Dessa vez não consegui subir todas as cartas. Boa parte deixei na portaria. Não iria sair mesmo. Entrei em casa e, dessa vez, havia cartas no chuveiro, em cima dos armários e saindo por debaixo da porta onde deveriam ter entrado. E comecei. Respondi, respondi, respondi. Fui escrevendo e escrevendo... mas as cartas cupulavam, se multiplicavam, pariam. Elas cresciam e eu dizia: "Calma! Já estou acabando, estou respondendo, estou respondendo..." E o apartamento foi ficando apertado, as cartas foram ficando apertadas, eu fui sufocando e, vendo que não tinha mais como, comecei a nadar para tentar fugir. Nadei, nadei, nadei. O oxigênio foi se acabando, eu comecei a me engasgar e... "a janela!" Foi a última coisa que consegui pensar, já que o ar parecia ser composto de super-envelopes gigantes incapazes de me entrar pelas narinas ou pela boca, mas que me espremiam como as cartas. Foi quando um envelope vermelho vivo se abriu e, num meu puxar desesperado de fôlego, colou na minha cara. Ainda pude ler: ao 'rapaz do restaurante'. Tal foi o destino do destinatário.
e me calo com a boca de feijão
shhh. it''s getting all so quiet and so peaceful. os rompantes contidos entre os segundos grudados.
mas o peito sempre em assombros, convém não desatentar. sobressaltos no coração que sempre bate demais, bate tanto, bate até doer. mas agora é hora de respirar, que ninguém aguenta muito num fôlego só. respiração de cachorrinho só pode anteceder ao parto e então me diz quantas vezes é possível parir?
mas o peito sempre em assombros, convém não desatentar. sobressaltos no coração que sempre bate demais, bate tanto, bate até doer. mas agora é hora de respirar, que ninguém aguenta muito num fôlego só. respiração de cachorrinho só pode anteceder ao parto e então me diz quantas vezes é possível parir?
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