Nasceu sem chorar, sem fazer barulho, parto normal e sem dor, olhos arregalados de quem espia. Passeava na praça, sempre às 9 horas. Um dia, esses olhos arregalados que a terra não há de comer por falta de apetite o viram. Ele passava no meio do cinza, como num filme, crac-crac nas folhas secas. Nesse dia, ela enxergou colorido. Era daltônica, culpa do pai, torcedor do Náutico, que numa raiva arrancou todo verde e vermelho que tinha metido na casa e tudo passou a tons de cinza. A praça, a luz, as pessoas tudoainda cinzas, mas ele era diferente e ela nem sabia que nome dar àquilo tudo que ele exalava. Cheiro de homem, talvez.
A praça estava no ruge-ruge e a kombi descarregava as flores na loja. Ele foi se abaixando de-va-gar-zi-nho e catou uma flor, caída no chão. Slowmotion, até que lhe escapou um grito. Fino, suspirado, mas grito: a flor se molhava de um cinza muito esquisito, havia algo de errado com a luz. Desconfiou dos lados. Estranho, ninguém notou nada. Que bom, ninguém ouviu. Nesse dia não dormiu. No dia seguinte, arranjou trabalho na loja. Era muito cheiro, a cabeça chegava a doer, mas era como abrir os braços e girar bem rápido. Era bom.
No outro dia, no ônibus, teve uma idéia que parecia tão ousada, que enrubeceu. Ele passava por ali todos os dias, ele pegava todas as flores. Nunca vira olhões tão estranhos como os daquela menina da lojinha. Umas bolotas de azul transparente, quase dava medo. Mas veio a neve, foram-se as flores. Joseph, mal-humorado com sua insônia improdutiva, decidiu entrar na lojinha e cobrar suas flores. Passou das 9 da manhã às 3 da tarde rondando pela praça, tremendo de frio, ensaiando a melhor maneira de descobrir o que tinha acontecido.
Disse um boa trade nervoso. Ela respondeu um boa tarde assustado. Ele atacou com um “tudo bem?” Ela retorquiu, na lata: “tudo. e você?” Eles se olharam desconfiados. Joseph ficou atrapalhado com aquelas bolotas e começou a futricar nas flores todas. “tô procurando flores. qual o seu nome?” Ela, espantada com tudo que via, porque Joseph ia tocando as flores uma a uma, fazendo uma confusão do que só então ela entendia que era cor, respondeu em meio-tom, com os olhos ainda mais arregalados, e ele ouviu só a metade: “ Mari... ana. E o seu?” Ele achou Ana um nome tão lindo que... “meu nome é oto. oto, com um 't' só”, e torceu para que ana pronunciasse sua próxima palavra. "como ana", pensou mariana sorrindo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário