Colocou o gato no microondas. Silêncio. Mas um pequeno barulho ao redor. Talvez no corredor. Podem ser passos. Morde os lábios, range os dentes e já não controla o tique que junta nariz e boca numa careta única, freneticamente várias caretas por segundo. Agora só o barulho do prato do microondas rodando. Certo, estão todos na sala de jantar. Pode ouvir as risadas comedidas e sociais, risadas de sofá de sala de espera. E ela lá, na cozinha. Precisava fazer alguma coisa. Não podia se cortar com a gilete nem afundar as unhas na palma da mão porque sangue demora a coagular. Já o gato, ali no microondas, sempre poderia parecer um descuido, um lapso. Hora do chá, ok. Chá preto, assim pode colocar o pozinho de baixo do fogão que ela NÂO LIMPOU! Alforria. Ela não limpou embaixo do fogão e guarda aquele pó com grãos de arroz, tudo emaranhado em alguns fios de cabelo engordurados como se fosse seu sutiã queimado. Vai pegar a bandeja. mas não sabe que vontade louca se lhe dá, que começa a bater o inox na pia. bate, bate, bate até entorta a bandeja ou ensurdecer. Hum, falta a toalhinha da bandeja. Vai ao banheiro e pega a cueca dele, aquela suja atrás que ele não tem o pudor de lavar antes que ela veja. Então é pra ver? Pois vai ser vista. Bandeja, xícaras e chá.
- Está servido.
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