Amar, do Drummond
Que pode uma criatura senão,entre criaturas, amar?
amar e esquecer,amar e malamar,amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal,
senão rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
*como pude esquecer?
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
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2 comentários:
Como pode um macaco gente(que me desculpe o Drummond, mas ele como nós, tambem era só um macaco melhorado)falar tão bonito. Sabe o que eu acho mais bonito na Humanidade? O fato de nós, upgrades recentes dos macacos, nos emocionarmos frente ao abstrato, como um quadro por exemplo: um pinta sem definir formas, outro olha e vê naquilo que não pode dizer o que é, algo emocionante. Boa Noite.
é tão lindo q dói, né? mas td bem, amar e ver doer o tempo inteiro. ;)
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